Os Anos de Chumbo - Notas sobre a Economia e a Política Internacional no Entre-Guerras
Vou começar a publicar (devidamente autorizado pelo autor), em primeira mão, o livro do professor Frederico Mazzucchelli de nome “Os Anos de Chumbo”. Livro este de total interesse para quem quiser entender o que está acontecendo nos dias de hoje no plano político e econômico do mundo e o porque desta crise. Para uma leitura mais organizada pretendo postar 2 ou 3 capítulos por semana e também uma opção para download total do conteúdo. Neste primeiro post colocarei a Apresentação e o Índice Temático. Bom proveito à todos.
Os Anos de Chumbo
Notas sobre a Economia e a Política Internacional no Entre-Guerras
Frederico Mazzucchelli
APRESENTAÇÃO
Este livro reúne dez ensaios sobre a economia e a política internacional durante o período que se estende da hegemonia inglesa no século XIX até a eclosão da Segunda Guerra Mundial. É desnecessário insistir sobre a importância histórica do arco de transformações vividas pelo mundo ao longo destas décadas. A Primeira Guerra Mundial, a emergência dos EUA como nação líder, a ressurreição e a falência do padrão-ouro, a emergência do comunismo no plano internacional, a incorporação das massas ao cenário político, os desencontros que se sucederam ao Tratado de Versailles, os percalços e contradições que conduziram à emergência do nazismo, as contínuas mudanças de rota da França no entre-guerras, o triunfal regresso e o súbito abandono da Inglaterra aos cânones da ortodoxia, a prosperidade americana dos roaring twenties, a Grande Depressão, as políticas de recuperação de Roosevelt e Hitler, os caminhos que levaram à eclosão do segundo conflito mundial e o impacto da guerra sobre a vida das nações, são alguns dos temas aqui tratados.
O objetivo central do trabalho é estabelecer uma discussão sistematizada sobre as principais dimensões políticas e econômicas do entre - guerras. Trata-se, em verdade, do exame da fragilidade da estruturação internacional que emergiu após a Primeira Guerra. Basta estabelecer uma breve contraposição com a ordem que se forjou após Segunda Guerra, para que se perceba a precariedade dos arranjos estabelecidos ao final da primeira conflagração mundial.
Após a rendição dos nazistas e japoneses, em maio e agosto de 1945, as lideranças ocidentais prontamente perceberam que era imprudente - e, acima de tudo, temerário - retornar às práticas políticas e econômicas míopes do entre - guerras: o apego obsessivo aos termos punitivos dos tratados de paz de 1919, o protecionismo exacerbado, as desvalorizações competitivas, a insistência na ortodoxia fiscal e monetária, a submissão aos preceitos rígidos do padrão-ouro - que precipitou, inclusive, o aprofundamento da Grande Depressão -, a desconsideração sumária dos interesses das nações ‘revisionistas’ (Alemanha, Japão e Itália), a soberba com que Inglaterra e França conduziram a Liga das Nações e a renitência dos EUA em participar ativamente das questões internacionais, haviam levado o mundo ao desastre.
É verdade que as propostas iniciais para a desindustrialização da Alemanha e do Japão ainda ecoavam o revanchismo típico de Versailles. Sensatamente, contudo, tais sugestões foram abandonadas: a ‘pastorização’ dos dois países poderia inaugurar uma nova era de insegurança e incertezas na Europa e na Ásia. Sob o acicate da Guerra Fria, os Acordos de Bretton Woods (ainda que distantes das recomendações originais de Keynes e Dexter White), o Plano Marshall, a criação da OTAN e a estruturação dos Estados de Bem Estar Social, claramente passaram a indicar uma nova orientação para o manejo das questões domésticas e internacionais. As contribuições e iniciativas de Keynes, Beveridge, Mannheim e Monnet - entre outros - tornaram-se parte integrante do universo decisório das lideranças ocidentais. A partir de 1947, os países capitalistas ingressariam em um ciclo virtuoso de expansão, enquanto a Europa do Leste iria mergulhar em um longo inverno. Não se trata, é claro, de desconsiderar as tensões e contradições que a expansão capitalista traria mais à frente. O ponto fundamental a ser retido é que os Anos Dourados não foram mera obra do acaso. Ao contrário, foram, em grande medida, o resultado de uma construção política e de um acordo social, conscientemente concebidos e exitosamente implementados a partir de 1947.
O contraste entre a arquitetura institucional, política e econômica que nasceu dos desdobramentos dos dois conflitos mundiais é flagrante: enquanto a Primeira Guerra Mundial assinalou o início da tenebrosa marcha dos Anos de Chumbo, o final da Segunda Guerra Mundial - para muitos, a última grande batalha da Guerra de Trinta Anos do século XX - inaugurou uma era de esperanças e prosperidade, sobretudo no mundo capitalista avançado. É exatamente sobre a debilidade e o caráter potencialmente explosivo da ordem internacional forjada entre o início e meados do século XX, que se ocupa este livro.
A amplitude e a complexidade das questões discutidas impuseram algumas cautelas. A caracterização de cada ensaio como “Notas” buscou exatamente precisar o alcance dos textos. Há, de início, uma limitação intencional em relação à bibliografia utilizada. A bibliografia referente a cada um dos temas abordados é sabidamente extensa. A opção pela minuciosa revisão bibliográfica teria praticamente inviabilizado a elaboração de um esboço interpretativo mais geral sobre o período, que é o propósito maior destas páginas. O ponto de apoio das análises foram, assim, contribuições que considerei essenciais para a compreensão dos temas. Ao invés de pretender exaurir a bibliografia existente, a escolha recaiu sobre utilização extensiva de trabalhos estratégicos, como os de Hobsbawm, Barbosa de Oliveira, Eichengreen, Kemp, Aldcroft, Moggridge, Kindleberger, Fearon, Overy, Henig, Barkai, Campagna, Belluzzo, Nove, Harrison, Walton & Rockoff, Maddison e Mitchell, entre outros.
O próprio recorte temático foi definido de modo a privilegiar a discussão das questões julgadas centrais. Há, evidentemente, inúmeros aspectos que não foram tratados, ou apenas tangenciados. Na perspectiva aqui adotada, entretanto, as eventuais lacunas não representam necessariamente falhas, mas, acima de tudo, estímulos para a reflexão futura.
É de péssimo gosto pretender dar sugestões aos leitores, mas é conveniente assinalar que os ensaios podem ser lidos isoladamente. Apesar da evidente unidade que os articula, existe uma independência relativa entre cada um dos textos apresentados. Se algum mérito este trabalho possui, talvez o principal seja que ele não se destina especificamente ao “público economista”. É claro que, em alguns momentos, a análise propriamente econômica é preponderante, mas intencionalmente distante dos vícios e do vazio cognitivo do economics.
Não fossem a amizade, o estímulo e a inqüestionável liderança intelectual de Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, e este trabalho seria sequer concebido. As citações de Belluzzo existentes no texto, sem a devida remissão bibliográfica, referem-se a observações informais suas em salas de aula, seminários ou conferências.
Dois amigos de longa data, Carlos Alonso Barbosa de Oliveira e Eduardo Kugelmas foram interlocutores permanentes. Se não acatei inúmeras de suas sugestões, não foi por soberba, descaso ou desconsideração. Simplesmente, há um momento na elaboração de um livro em que não basta o autor permanecer rigorosamente concentrado. Ele deve, também, permanecer surdo. Os eventuais equívocos e omissões, portanto, são de minha inteira responsabilidade. O mesmo se aplica em relação às citações em língua estrangeira que, em respeito ao leitor, foram traduzidas livremente para o português.
Tão pronto este trabalho foi concluído, e Eduardo Kugelmas partiu. A perda de um amigo é sempre desconcertante. Eduardo, pela retidão de seu caráter, pela excelência de sua formação, pela acuidade de sua inteligência e por sua curiosidade irriquieta nos brindou exemplos marcantes em sua passagem pela vida. Nenhum deles maior, certamente, que a grandeza de seus gestos.
Marcos Antonio Macedo Cintra e Aloísio Sérgio Barroso foram por demais tolerantes na leitura dos originais, e especialmente pertinentes em suas observações críticas.
Apenas em um ambiente intelectual sério, plural, fraternal e democrático é que um trabalho com as atuais características poderia ter sido conduzido. Nas figuras de Márcio Percival Alves Pinto e Mariano Laplane, registro meu reconhecimento aos colegas e alunos do Instituto de Economia da Unicamp. Este livro (com exceção do capítulo final, escrito posteriormente) é o resultado da Tese de Livre Docência que apresentei ao referido Instituto em dezembro de 2007. Agradeço os comentários acima de tudo generosos da banca examinadora formada pelos professores Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, Sérgio Buarque de Holanda Filho, Eros Roberto Grau, Aloísio Teixeira e José Carlos Braga. A qualidade das questões discutidas com debatedores de tal envergadura forjou em mim a convicção de que o presente trabalho não foi escrito em vão.
ÍNDICE TEMÁTICO
1 A Oficina do Mundo e o Livre-Câmbio: Notas sobre a Ordem Liberal Burguesa
Periodização
A industrialização originária
O ciclo ferroviário
A oficina do mundo e as industrializações atrasadas
A “Grande Depressão” e a IIª Revolução Industrial
As rivalidades internacionais e a eclosão da guerra
2 A Marcha da Insensatez: Notas sobre a Primeira Guerra Mundial
Dimensões políticas e sociais
Centralização das decisões e inflação
O vazio de liderança
A reintrodução do padrão-ouro
Tempos difíceis
3 Uma Nau sem Rumo: Notas sobre a França no Entre-Guerras
Recuperação, desvalorização do franco e inflação
Cartel des Gauches
O Franc Poincaré
O amor ao ouro
O Front Populaire
Daladier e o fim da semana de 40 horas
Uma trajetória melancólica
Anexo Estatístico
4 O Fascínio do Ouro: Notas sobre a Inglaterra no Entre-Guerras
O boom e o roteiro deflacionário
Back to $ 4,86
O desempenho da Inglaterra nos anos 1920s
A desvalorização da libra
Cheap money, protecionismo comercial e a recuperação inglesa nos anos 1930s
O declínio das exportações e as new industries
Nem brilhante, nem desastroso
Anexo Estatístico
5 Uma Frágil Construção: Notas sobre a República de Weimar
As divisões políticas
Condições frágeis
A hiperinflação
A política fiscal e a política monetária
A establização do marco
O Plano Dawes e as características da recuperação entre 1924-28
A contração no fluxo dos empréstimos internacionais
Brüning
6 Os Passos de um Gigante: Notas sobre os EUA entre a Primeira Guerra e a Depressão
Antecedentes
Os EUA e a Primeira Guerra Mundial
Os Roaring Twenties
A Grande Depressão
Hoover
Anexo Estatístico
7 O Capitalismo Reformado: Notas sobre o New Deal 195
A recuperação econômica
Action and action now
A desvalorização do dólar e a regulamentação do sistema financeiro
O apoio à agricultura
A “política industrial”, o avanço da sindicalização e o sistema de proteção social
A política fiscal e o combate ao desemprego
O capitalismo reformado
Anexo Estatístico
8 O Capitalismo Tutelado: Notas sobre a Recuperação Econômica sob o Nazismo
As recomendações ortodoxas e a perspectiva nazista
As despesas militares e a recuperação econômica
A questão do financiamento
Características da recuperação econômica
O “Novo Plano” de Schacht e o II Plano Quadrienal de Göring
O capitalismo tutelado
Anexo Estatístico
9 Rumo ao Desatre: Notas sobre as Origens da Segunda Guerra Mundial
A questão imperial
Appeasement
O turning point de Munich
As ambições de Hitler e o desfecho sangrento
10 O Mundo em Chamas: Notas sobre o Impacto da Segunda Guerra Mundial
As marcas da violência
Dimensões econômicas gerais
As economias nacionais durante a guerra
Alemanha
Japão
Itália
Inglaterra
URSS
EUA
A última batalha de um longo conflito

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