A Oficina do Mundo e o Livre-Câmbio: Notas sobre a Ordem Liberal Burguesa
Logo ao início de sua movimentada Viagem pelo Tempo Econômico (1994: 7-8), Galbraith observa:
“Estou convencido, como muitos outros, de que o grande ponto de mutação da história econômica moderna, aquele que mais do que qualquer outro introduziu a era moderna da economia, foi a Grande Guerra de 1914-1918, depois reduzida à expressão mais modesta e, no todo, menos exata e expressiva, de Primeira Guerra Mundial. (…) Na verdade, estaria correto chamar a Primeira Guerra Mundial de Grande Guerra; a Segunda Guerra foi a sua última batalha.”
Por Frederico Mazzucchelli
De fato, a Grande Guerra de 1914-1918, dramaticamente descrita nas frentes de combate por Erich Maria Remarque no clássico Nada de Novo no Front, assinala o fim da chamada Ordem Liberal Burguesa. A Belle Époque e a Pax Britannica se transformam, então, em lembranças nostálgicas de um mundo perdido para sempre. O mosaico político da Europa se estilhaça, e se abre uma era de incertezas, contradições, ressentimentos e conflitos que culminam com a invasão da Polônia em 1939 (Overy, 1995: 3; 7; 10). O fim da guerra, além da derrota dos Impérios Germânico e Austro-Húngaro, trouxe consigo o colapso da ordenação mundial comandada pela Inglaterra. Neste sentido, ela representa, também, a sua derrota…
A hegemonia inglesa remonta ao caráter pioneiro de sua industrialização, à força de sua marinha, à extensão de seu Império e à dimensão internacional de suas finanças. Foi a partir desses pilares que a Inglaterra pôde liderar a organização da economia e da política mundiais, desde o final das guerras napoleônicas até o assassinato do Arquiduque Francisco Ferdinando. Esta foi uma ampla e complexa estruturação, aparentemente estável e duradoura, que não pôde, contudo, resistir às transformações engendradas em seu próprio seio. A Pax Britannica culminou com a exacerbação das rivalidades nacionais, com o conflito sangrento e a sucessão de desencontros que se iniciam já em 1919 com o Tratado de Versailles.
Periodização
A Ordem Liberal Burguesa corresponde ao período que se estende desde a consolidação da Revolução Industrial na Inglaterra à eclosão do primeiro conflito mundial.
Trata-se de uma ordem, porque diz respeito a uma estruturação – um ordenamento - internacional da economia e da política mundiais comandada pela Inglaterra.
Esta ordem é liberal, porque tem como características centrais a livre movimentação de mercadorias, capitais e homens e a relativa dissociação entre a ação do Estado e a acumulação de capital. Desde logo, a emergência do protecionismo comercial e a ativa presença do Estado nas industrializações atrasadas e na corrida colonial do último quartel do século XIX, permitem a identificação de dois sub-períodos distintos: o primeiro, que se prolonga sem maiores contradições, desde a década de 1830 até a Grande Depressão (1873-1896); e o segundo, marcado pela crescente exacerbação das rivalidades nacionais, desde a Depressão ao conflito mundial.
Trata-se, por último, de uma ordem burguesa, porque diz respeito à generalização das relações econômicas, sociais e políticas do capitalismo por todo o mundo.
As observações anteriores requerem algumas qualificações. Barbosa de Oliveira, em seu magnífico trabalho1, observa que as características da era concorrencial do capitalismo – notadamente a livre circulação de mercadorias e a relativa exterioridade do Estado frente à acumulação de capital – tiveram plena vigência até a Grande Depressão. Neste período, “a nova ordem internacional reproduziu-se de forma relativamente equilibrada”, graças à “articulação de interesses promovida pelo capitalismo inglês, articulação na qual o dinamismo da economia britânica era difundido ao resto do mundo” (B. Oliveira, 2002: 198). Hobsbawm (1977b: 58), a propósito, observa que, na Era do Capital (1848-1875), “a expansão geral do comércio mundial beneficiou a todos, mesmo que beneficiasse desproporcionalmente a Inglaterra”.
Este é o momento em que a Inglaterra se afirmou como a “oficina do mundo” (workshop of the world). As relações entre Estado e acumulação eram, então, manifestamente tênues, o que permite caracterizar o Estado Liberal como um fenômeno associado ao capitalismo concorrencial:
“[O] capitalismo concorrencial conforma uma estrutura econômica cuja reprodução é regulada por mecanismos puramente econômicos (…). [A] expansão do capital na era concorrencial podia dispensar apoios externos, que na fase da acumulação primitiva foram oferecidos pelo Estado absolutista. Por essas razões, podemos associar teoricamente essa estrutura concorrencial do capitalismo ao Estado liberal” (B. Oliveira, 2002: 177).
Hobsbawm, na mesma linha, relaciona a “não convergência entre a política e a economia” como um dos atributos marcantes do período concorrencial. Referindo-se às características da economia mundial na Era dos Impérios (1875-1914), o eminente historiador (1988: 83-4) observa “a crescente convergência” entre a política e a economia, como uma das dimensões ou “sintomas do retraimento da economia da livre concorrência, que fora o ideal - e até certo ponto a realidade - do capitalismo de meados do século XIX”
A Grande Depressão, por sua vez, é um ponto de inflexão, “uma fase de transição entre a etapa concorrencial do capitalismo e a monopolista” (B. Oliveira, 2002: 238). A Ordem Liberal Burguesa se transfigura, já que a ação deliberada do Estado - o que inclui o crescente protecionismo comercial da década de 1880 – passa a ser um elemento determinante na vida das nações. Após a Depressão – que atingiu de modo especial a economia inglesa - a Inglaterra assiste à progressiva superação de sua indústria pela concorrência americana e alemã nos mercados mundiais. A partir de então, sua dependência face às operações da City, à ação de sua rede de serviços internacionais (fretes, seguros, traders) e às relações com o Império, torna-se crucial. Ao mesmo tempo, a concorrência internacional se exacerba, e culmina com a vertiginosa corrida colonial de finais do século XIX.
Ressalte-se, contudo, que estas transformações se dão em um contexto de forte expansão econômica geral e de preservação da mais ampla mobilidade dos movimentos internacionais de capital e de mão de obra (Hobsbawm: 1988: 68; 73). Mais ainda, o período 1870-1914 corresponde ao apogeu do padrão-ouro. Tal regime supunha não apenas a centralidade da praça financeira de Londres e a credibilidade quanto à defesa intransigente da paridade das moedas com o ouro – the commitment to gold -, mas também a efetiva cooperação entre os países (Eichengreen, 1995: xi; 2000: 57; 63). O que se tem, assim, é a cooperação em meio às rivalidades políticas e comerciais, em um ambiente de crescimento eufórico no núcleo capitalista central (já incluídos, aí, os Estados Unidos) e de livre movimentação financeira internacional.
Deste modo, os sub-períodos acima mencionados referem-se, respectivamente, à etapa concorrencial e à transição e configuração inicial da etapa monopolista do capitalismo.
É essencial destacar, contudo, que a hegemonia inglesa, na aurora do século XX, vinha sendo progressivamente solapada pelo fortalecimento político e pelo extraordinário crescimento econômico das nações rivais. Se a brutalidade da Primeira Guerra sancionou o seu fim, é porque seus fundamentos não tinham mais a mesma vitalidade exibida na exposição de Crystal Palace em 1851.
1 Processo de industrialização – Do capitalismo originário ao atrasado é uma obra fundamental. Nela, o rigor teórico, a precisão da análise histórica e a construção certeira das ‘categorias da mediação’ combinam-se de maneira ímpar. Este ensaio está declaradamente apoiado em suas conclusões.
