O impacto das novas tecnologias sobre os direitos autorais
25 de julho de 2010 – 15:00 | No Comment

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A industrialização originária

Submitted by André Kadow on 25 de novembro de 2008 – 11:17No Comment
A industrialização originária

Convém reconstituir, em grandes linhas, a trajetória desta hegemonia. Estabelecidas certas pré-condições essenciais (revolução agrícola, com a conseqüente liberação da mão de obra do campo; constituição do Estado Nacional e difusão das relações mercantis através da expansão do capital comercial, do putting out e da manufatura; articulação internacional, decorrente da posição dominante adquirida no comércio mundial), a Inglaterra passa a observar transformações decisivas no último quartel do século XVIII (B. Oliveira, 2002: 164-71).

Destaque-se, de início, que as transformações tecnológicas verificadas não decorreram de uma suposta (até porque duvidosa!1) superioridade científica da Inglaterra vis-à-vis os países da Europa Continental. As inovações, na produção têxtil e na energia a vapor, foram introduzidas por ‘homens práticos’, em verdade “trabalhadores especializados, que iam acumulando conhecimentos sobre os materiais utilizados, e desenvolvendo suas habilidades e capacidade criadora” (B. Oliveira, 2002: 164). Não havia qualquer conexão mais profunda com a hard science e, de fato, “o que diferenciava a Inglaterra de outros países europeus não era a capacidade de criar inovações, mas a rápida e muitas vezes generalizada incorporação das invenções ao processo produtivo.”. Esta ‘generalizada incorporação’, por sua vez, era “uma resposta aos entraves ao aumento da produção que progressivamente se manifestavam” (B. Oliveira, 2002: 165). E se tais entraves se manifestavam é porque a produção mercantil já abarcava a maior parte das relações econômicas internas e externas da Inglaterra.

Neste processo, os emergentes industriais eram pequenos proprietários que obtinham os recursos para o capital fixo e circulante junto aos comerciantes e ao sistema bancário. Em muitos casos os próprios comerciantes se transformavam em industriais:

“[Alguns] comerciantes tornavam-se eles próprios industriais. Nesse processo de metamorfose do capital comercial em capital industrial, deve-se dar destaque aos capitais acumulados no tráfico negreiro e no comércio colonial que fluíam para Manchester. Assim, o colonialismo escravista garantiu não somente mercados em expansão, mas também foi capaz de fornecer expressivos montantes de capitais para a nascente indústria, manchando com o sangue de escravos africanos a raiz do futuro liberalismo manchesteriano” (B. Oliveira, 2002: 166-7).

Em seu judicioso estudo sobre as relações entre bancos e indústria na Inglaterra, Collins (1991: 15-6) observa que, durante a Revolução Industrial, as necessidades de financiamento versavam, basicamente, sobre o crédito comercial (capital circulante) de curto-prazo:

“É um fato amplamente aceito que, durante o período da ‘revolução industrial’ (1760-1830, aproximadamente), a escala relativamente limitada das operações industriais e a natureza elementar da tecnologia empregada, significaram que, para a maior parte das indústrias, as necessidades de financiamento de curto-prazo para o capital de giro fossem superiores às requeridas para o capital fixo (plantas, máquinas etc.). (…) Os industriais da época preferiam utilizar os fundos internos das empresas (lucros não distribuídos) e/ou os recursos de amigos e conhecidos para financiar as exigências de capital fixo, ao invés de tomar empréstimos junto às instituições financeiras. Como resultado, a demanda da indústria por recursos de longo-prazo junto aos bancos não era grande (…). Ao contrário, os requerimentos principais eram por empréstimos de curto-prazo (…) .”

Apesar da reduzida demanda de crédito pelas empresas (cuja natureza era tipicamente familiar), da pequena escala dos bancos ingleses em finais do século XVIII, de sua vulnerabilidade e de sua preferência por operações de prazo mais curto, as eventuais necessidades de crédito de longo-prazo também foram atendidas adequadamente pelos bancos. Há consenso quanto ao fato de que o sistema bancário inglês contribuiu para o financiamento à indústria através de créditos renováveis de curto-prazo. Mais ainda, dado que os requisitos de capital e as escalas de operação eram relativamente modestos, e que a expansão industrial se fundava, basicamente, na reinversão dos lucros correntes, configurou-se um padrão de relacionamento em que os bancos não participavam diretamente da organização da indústria.2 Por fim, os requerimentos da infra-estrutura econômica (estradas, canais, pontes, portos etc.), foram atendidos – da mesma forma – pela ação de capitais privados com o apoio do sistema bancário.3

O fato é que a indústria têxtil na Inglaterra literalmente revolucionou a estrutura econômica e social: em 1785 estima-se que, além de Londres, havia apenas três cidades com mais de 50.000 habitantes na Inglaterra e na Escócia. Setenta anos mais tarde (1855), já eram mais de trinta! Manchester, que em 1772 tinha 25.000 habitantes, em 1851 registrou 455.000 habitantes (Palmer & Colton, 1995: 459). A descrição desta cidade-símbolo, feita por Tocqueville em 1835, e reproduzida por Hobsbawm (1977a: 43), é digna de registro:

“Desta vala imunda a maior corrente da indústria humana flui para fertilizar o mundo todo. Deste esgoto imundo jorra ouro puro. Aqui a humanidade atinge o seu mais completo desenvolvimento e sua maior brutalidade, aqui a civilização faz milagres e o homem civilizado torna-se quase um selvagem.”

A “atmosfera envolta em neblina e saturada de fumaça, na qual as pálidas massas operárias se movimentavam” (Hobsbawm, 1977: 69) era um cenário degradante que, cruzando o oceano, se estendia e se entrelaçava aos horrores das plantações escravistas de algodão do sul dos Estados Unidos4. Se a produção têxtil inglesa teve tamanho poder transformador, é porque a Inglaterra – sobretudo após Waterloo – já era ‘senhora dos mares’ e gozava de “uma posição praticamente monopolista no mercado mundial” (B. Oliveira: 169)5. A indústria têxtil inglesa se direcionou de modo progressivo para as exportações, inundando a Europa Continental e “os mercados colonial e semi-colonial6. Não por acaso, em 1817, Ricardo, ao mesmo tempo em que advogava a eliminação das Corn Laws, estabeleceu o famoso postulado das vantagens comparativas no comércio internacional: para a Inglaterra, alimentos e matérias primas. Para o resto do mundo … manufaturas inglesas.

Do ponto de vista das relações setoriais, importa destacar que a indústria têxtil na Inglaterra, por sua própria extensão e dinamismo, foi capaz de irradiar estímulos que se propagaram para as indústrias de mineração do carvão, metalurgia do ferro, máquinas a vapor, construção civil e infra-estrutura em geral. Assim, ao contrário do que irá ocorrer nas industrializações atrasadas, “na Inglaterra a mecanização dos têxteis criou condições para o surgimento do departamento I” (B.Oliveira, 2002: 169-70)7.

As transformações da agricultura inglesa (enclosures), por fim, já haviam liberado enormes contingentes de trabalhadores, aptos para serem empregados na indústria. Os avanços da produção fabril, por sua vez, destruíam as formas de produção pré-existentes e lançavam novos contingentes de trabalhadores à disposição da indústria. Ao atentar para o ímpeto da industrialização inglesa, Marx (1966, I: 538; 542) estabeleceu a conclusão definitiva de que o regime do capital (vale dizer, a grande indústria erigida sobre a base da maquinaria) cria, ao mesmo tempo, a demanda e a oferta de trabalho: “conforme cresce a força produtiva do trabalho, o capital faz crescer sua oferta de trabalho mais rapidamente que sua demanda de trabalhadores (…) Quando a acumulação aumenta, em uma frente, a demanda de trabalho, aumenta, também, em outra frente, a oferta de trabalhadores, ao deixá-los ‘disponíveis’ (…).8. Se os trabalhadores estavam efetivamente livres e “disponíveis” para trabalharem na indústria, era necessário, contudo, que se adequassem às exigências da disciplina e do ritmo do trabalho fabril. Isto foi conseguido à custa da imposição de condições agudas de exploração, que incluíam uma legislação laboral permissiva, baixos salários e a utilização inescrupulosa de mulheres e crianças no trabalho fabril (Hobsbawm, 1977a: 66-7).

1 “Qualquer que tenha sido a razão do avanço britânico, ele não se deveu à superioridade tecnológica e científica. Nas ciências naturais os franceses estavam seguramente na frente dos ingleses” (Hobsbawm, 1977a: 45).

2 Collins (1991: 16-8); Hobsbawm (1977a: 52); B. Oliveira (2002: 167; 170).

3 B. Oliveira (2002: 167-8); Hobsbawm (1977a: 68).

4 “Depois da década de 1790 as plantações escravagistas do sul dos EUA foram aumentadas e mantidas pelas insaciáveis e vertiginosas demandas das fábricas de Lancashire, às quais forneciam o grosso da sua produção de algodão bruto” (Hobsbawm, 1977a: 50).

5 Ver, também, Hobsbawm (1977a: 49-50; 54).

6 “Em termos de vendas, a revolução industrial pode ser descrita, com a exceção dos primeiros anos da década de 1780, como a vitória do mercado exportador sobre o doméstico: por volta de 1814, a Grã-Bretanha exportava cerca de quatro jardas de tecido de algodão para cada três usadas internamente, e, por volta de 1850, treze para cada oito. E dentro deste mercado exportador em expansão, por sua vez, os mercados colonial e semi-colonial, por muito tempo os maiores pontos de vazão para os produtos britânicos, triunfaram. (…) [Por] volta de 1840 a Europa adquiriu 200 milhões de jardas, enquanto as áreas ‘subdesenvolvidas’ adquiriram 529 milhões” (Hobsbawn, 1977a: 51). O caso da Índia merece destaque: “A Índia foi sistematicamente desindustrializada e passou de exportador a mercado para os produtos de algodão da região de Lancashire: em 1820, o subcontinente adquiriu somente 11 milhões de jardas; mas por volta de 1840 já adquiria 145 milhões.” Idem, ibidem.

7 Ver, também, Hobsbawm (1977a: 60).

8 Ver, também, Mazzucchelli (2004: 12-3).

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