A ‘Grande Depressão’ e a IIª Revolução Industrial
Texto: Frederico Mazzucchelli
A Grande Depressão (1873-1896) representa um ponto de inflexão na trajetória do capitalismo no século XIX. Ela marca a transição do capitalismo concorrencial ao capitalismo monopolista. Marca, também, o momento em que a “oficina do mundo” se torna progressivamente obsoleta, com a indústria inglesa perdendo uma liderança até então inquestionável. Ao final da Grande Depressão, a economia e a política mundiais haviam sofrido transformações radicais: a euforia efêmera da Belle Époque apenas disfarçou a exacerbação das rivalidades que iriam desaguar na carnificina de 1914-1918.
Talvez a primeira questão a ser respondida seja: Por que a Depressão não foi Grande? Hobsbawm (1988: 58-9) chama a atenção para este ponto:
“[Entre] 1873 e meados dos anos 1890, a produção mundial, longe de estagnar, continuou a aumentar acentuadamente. Entre 1870 e 1890, a produção de ferro dos cinco principais países produtores mais do que duplicou (de 11 para 23 milhões de toneladas); a produção de aço, que agora passa a ser o indicador adequado do conjunto da industrialização, multiplicou-se por vinte (de 500 mil para 11 milhões de toneladas). O crescimento do comércio internacional continuou a ser impressionante (…). Foi exatamente nessas décadas que as economias industriais americana e alemã avançaram a passos agigantados (…). Muitos dos países ultramarinos recentemente integrados à economia mundial conheceram um surto de desenvolvimento mais intenso que nunca (…) O investimento estrangeiro na América Latina atingiu níveis assombrosos nos anos 1880, quando a extensão da rede ferroviária argentina foi quintuplicada. Será que um período com um aumento tão espetacular da produção podia ser descrito como uma ‘Grande Depressão’?”
A Grande Depressão, na verdade, foi a Grande Deflação: “em um século globalmente deflacionário, nenhum período foi mais drasticamente deflacionário que 1873-1896, quando o nível de preços britânico caiu em 40%” (Hobsbawm, 1988: 61). Neste período, a agricultura foi particularmente penalizada: o preço dos produtos agrícolas despencou. Em 1894 o preço do trigo era cerca de dois terços inferior ao registrado em 1867 (Hobsbawm, 1988: 60). Na observação de B.Oliveira (2002: 242), “a célere construção ferroviária do terceiro quartel do século XIX e a extensa incorporação de novas áreas à produção resultaram em substancial aumento da oferta de produtos agrícolas, e o período da Grande Depressão vai caracterizar-se por persistentes quedas de preços dos produtos primários.1” No que se refere à Europa, o colapso dos preços trouxe sérios problemas para os trabalhadores agrícolas, que em inúmeros países ainda representavam a maioria esmagadora da força de trabalho masculina (apenas na Inglaterra sua participação era reduzida). Foi a partir daí que se deu, nos anos 1880s, o enorme fluxo das migrações ultramarinas: países como Itália, Espanha e Áustria-Hungria, entre outros, assistiram à emigração em massa de trabalhadores rurais. Vitimados pela angústia e pela impotência em face da contração de preços e confrontados com o esgotamento das perspectivas em suas nações de origem, a única alternativa que se apresentou a milhões de trabalhadores foi a busca da sorte em terras distantes (Hobsbawm, 1988: 61).
Há um fato, contudo – talvez o mais importante -, que não pode ser desconsiderado: em um ambiente deflacionário, a concorrência entre os capitais tende a ser tornar mais aguda. Ora, este é exatamente o momento que a industrialização dos Estados Unidos e da Alemanha já estava consolidada. Tratando-se de economias jovens, e preparadas politicamente (a Guerra de Secessão termina em 1865 e a unificação de Bismarck é completada em 1871), prontamente trataram de se organizar em termos mais avançados que a Inglaterra. Assim, sob o acicate da concorrência – magnificada pela deflação – as economias de industrialização recente inovaram em termos tecnológicos, financeiros e organizacionais, desenvolveram políticas protecionistas e se lançaram à conquista de novas áreas de influência. À Inglaterra não restava senão o estreitamento (e a defesa) de suas relações com o império formal e informal, o que redundava – sobretudo através da exportação de capitais – em estímulos dinâmicos ao comércio internacional. Deflação, intensificação da concorrência internacional e expansão econômica mundial parecem, assim, se combinar:
“Arrighi aponta corretamente para a intensificação da concorrência – entre os sistemas empresariais e financeiros da industrialização originária e aqueles recém constituídos sob a forma monopolista – como o fator capaz de explicar a aparente contradição, apontada por alguns estudiosos, entre a deflação prolongada de preços e a rápida acumulação de capital” (Belluzzo, 1999: 92).
As transformações observadas no último quartel do século XIX foram múltiplas e conexas:
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Gestação dos elementos que irão conformar a IIª Revolução industrial: aço, motor a combustão interna, química fina e eletricidade, com a incorporação da ciência aos processos de produção;
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Aumento das escalas de produção, com a conseqüente centralização do capital produtivo e o controle dos mercados por grandes empresas;
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Concentração do sistema bancário2;
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Difusão das sociedades anônimas como forma de organização das empresas;
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Estreitamento das relações entre bancos e indústria através do crédito de capital (Alemanha) e da fusão de interesses entre os negócios bancários e industriais (EUA)3;
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Convergência explícita entre economia e política através da ação do Estado na imposição de tarifas protecionistas4, na promoção dos negócios5 e na corrida imperialista.
Convém esclarecer que a maior parte dessas transformações não se apresentou de modo súbito. Não foi de um momento a outro que a livre concorrência se transfigurou em monopólio, que o novo padrão tecnológico se implantou ou que as formas mais avançadas de organização da empresa capitalista se cristalizaram. As novas características estruturais do capitalismo configuraram um processo, que apenas teve início ao longo da Grande Depressão. É tão-somente na aurora do século XX que seus contornos se tornarão mais nítidos. A Grande Depressão foi, como já sublinhado, uma fase de transição, onde os elementos da etapa concorrencial e monopólica ainda conviviam e se entrelaçavam:
“Apesar dos avanços no processo de centralização de capitais, os monopólios ainda não eram generalizados e as empresas individuais típicas do capitalismo concorrencial ainda dominavam a estrutura econômica. Por outro lado, também o novo padrão tecnológico ainda não era dominante, com a exceção do aço, cuja produção supera a do ferro no período. Assim, os ramos da produção baseados na antiga tecnologia dominavam a economia no momento em que estavam ainda em gestação os setores ligados ao novo padrão técnico” (B. Oliveira, 2002: 238).6
As transformações, contudo, avançavam. Nos Estados Unidos e na Alemanha, os mercados (sobretudo nas indústrias do aço, petróleo e química) iam sendo dominados por grandes empresas – o que provocava reações, como a legislação anti-trust nos EUA7 -, os bancos participavam ativamente na estruturação e na condução dos negócios, e as inovações eram progressivamente disseminadas no aparato produtivo. A centralização do capital, nesses países, foi se impondo de modo inexorável. A Inglaterra não acompanhou este processo: seu sistema bancário nunca teve um envolvimento mais profundo com a indústria, e esta – em razões dos vultosos investimentos pretéritos (1850-1870) – não apenas revelava elevados níveis de imobilização, como exibia formas de organização ainda tradicionais. Enquanto os bancos ingleses se concentravam e, mais do que nunca, se voltavam para o financiamento de operações internacionais, a indústria britânica permanecia refém de sua estrutura concorrencial:
“[A] explicação última para as maiores dificuldades da economia inglesa deve ser buscada em sua própria estrutura econômica. O padrão do sistema bancário inglês, especializado no financiamento do comércio internacional e nos empréstimos externos, e a ausência de relações diretas entre bancos e indústrias bloqueavam a adoção de formas mais avançadas de organização da produção. (…) [Na] Inglaterra a firme estrutura concorrencial implantada retardava o surgimento de novos padrões técnicos e financeiros.
Na verdade, para que a economia inglesa pudesse seguir os passos de seus novos concorrentes ela teria que negar-se a si própria: o sistema bancário deveria limitar suas operações com o exterior (…) e transformar-se em financiador direto da indústria. Esta última, por seu turno, teria de esterilizar os investimentos já realizados para que pudesse surgir a grande empresa oligopólica” (B. Oliveira, 2002: 240-1).
Se a Inglaterra progressivamente perdia a condição de “oficina do mundo”, o mesmo não se pode afirmar de sua condição de “banqueira do mundo”. Entre 1870-1890, a preeminência de Londres como centro financeiro internacional era indiscutível: quer no financiamento do comércio internacional, quer nos empréstimos aos países, quer na gestão do padrão monetário internacional – cuja cúspide era o Banco da Inglaterra – era Lombard Street que coordenava as finanças mundiais. Mesmo a emergência de Paris e Berlim como centros financeiros rivais, a partir de 1890, foi incapaz de ofuscar a liderança inglesa nas finanças internacionais. 8
“O economista italiano Marcello De Cecco (…) mostra que, entre 1870 e 1890, havia um predomínio incontrastado de Londres, como centro de intermediação financeira. (…)
A liderança do sistema financeiro inglês estava assentada no grande desenvolvimento dos bancos de depósito, o que havia permitido a Londres assegurar-se do financiamento do comércio de todo o mundo. Segundo De Cecco, a Inglaterra possuía, então, todos os requisitos para o exercício desta função de ‘financiadora do mundo’: a moeda nacional, a libra era reputada a mais sólida entre todas e, por isso mantinha uma sobranceira liderança enquanto intermediária nas transações mercantis e como instrumento de denominação e liquidação de contratos financeiros. O rápido crescimento e a impressionante concentração dos bancos de depósito colocavam à disposição esta matéria prima para o desconto de cambiais emitidas em vários países” (Belluzzo, 1999: 93).
Ao mesmo tempo em que progressivamente perdia a supremacia industrial no mundo, a Inglaterra estreitava os laços com seu imenso império colonial – particularmente com a Índia, ‘brightest jewel in the imperial crown‘ -, mercado cativo para qual se destinava a maior parte das exportações britânicas. Era através do superávit obtido nas transações com o Império que a Inglaterra financiava suas importações de alimentos e matérias primas e compensava as perdas sofridas no mercado mundial.
“A perda da posição competitiva da Inglaterra nos mercados da maior parte das nações independentes contrasta com a posição de total supremacia mantida no comércio com o Império, onde a Inglaterra mantinha o monopólio virtual de exportação. Manter esta posição tornou-se uma questão de vital importância (…)”.
“Embora a Inglaterra fosse progressivamente excluída dos mercados europeus e latino-americanos pela Alemanha e pelos Estados Unidos, ela conseguiu criar o excedente de exportações necessário ao ajustamento de suas transações comerciais externas através do monopólio dos mercados imperiais, onde seus produtores podiam descarregar os bens que tinham dificuldade de vender em outros países”.
“A solução da equação do balanço de pagamentos da Inglaterra, como vimos, foi encontrada pela criação e manutenção do superávit comercial com o Império, principalmente com a Índia.” (De Cecco, 1974: 28; 34-5; 37)9.
Deste modo, se a indústria britânica (sobretudo nas novas tecnologias) perdia terreno para os concorrentes, o papel crucial da City nas relações financeiras internacionais, a importância econômica do Império e a supremacia de sua marinha mercante, ainda faziam da Inglaterra uma nação singularmente forte. Pode-se afirmar que os fundamentos produtivos de sua hegemonia estavam sendo erodidos, mas não se pode afirmar que esta já pertencesse ao passado. A Inglaterra ainda era o centro do mundo.
“[O] pluralismo crescente da economia mundial [basicamente, a emergência de novas nações industrializadas] ficou, até certo ponto, oculto por sua persistente e, na verdade, crescente dependência dos serviços financeiros, comerciais e da frota mercante da Grã-Bretanha. Por um lado, a City de Londres era, mais que nunca, o centro de operações das transações comerciais internacionais (…). Por outro lado, o enorme peso dos investimentos britânicos no exterior e de sua frota mercante reforçou ainda mais a posição central do país, numa economia mundial que girava em torno de Londres e se baseava na libra esterlina. (…) Na verdade, a posição central da Grã-Bretanha por ora estava sendo reforçada pelo próprio desenvolvimento do pluralismo mundial. (…) Assim, o relativo declínio industrial britânico reforçou sua posição financeira e sua riqueza” (Hobsbawn, 1988: 80-1).
1 Os países primário-exportadores, de outra parte, foram contemplados pelo forte fluxo de exportação de capitais dos países industrializados.
2 As fusões bancárias foram particularmente intensas na Inglaterra: “As fusões entre os bancos destacaram-se por sua dramática dimensão. Houve uma sucessão de ‘ondas’ de fusões, sobretudo nos final dos 1880s e início dos 1890s, com um total de 67 fusões entre 1888 e 1894″ (Collins, 1991: 29-30). Neste processo, tornou-se incontrastável a preponderância dos Big Five: Barclays, Lloyds, Midland, National Provincial e Westminster.
3 “Enquanto na Alemanha a estreita relação entre bancos e indústria já estava estabelecida mesmo antes da cartelização da economia, nos Estados Unidos o amálgama entre negócios bancários e industriais deu-se depois de 1870. Magnatas da indústria e da estrada de ferro tornavam-se também banqueiros, e banqueiros passavam a controlar as indústrias” (B. Oliveira, 2002: .238).
4 “[O] protecionismo (…) é a economia operando com a ajuda da política” Hobsbawm (1988:102).
5 Referindo-se aos Estados Unidos, Tavares & Belluzzo (2004: 115) observam: “A porosidade do poder político aos interesses privados deu origem a um Estado plutocrático, na medida em que não só os grupos econômicos mais poderosos se desenvolveram à sua sombra e sob seu patrocínio, mas também se valeram da permissividade das instituições liberais. (…) O escritor Kevin Phillips (…) sugere que, desde a Guerra Civil, esta precariedade institucional sustentou o avanço das sucessivas gerações de ‘barões ladrões’ que transformaram a economia e comandaram a política americana.”
6 Ver, também, B. Oliveira (2002: 236), Hobsbawm (1977b: 64) e Hobsbawm (1988: 75-76; 81).
7 O Sherman Act, que dá início à legislação anti-trust nos EUA, é de 1890. Tavares & Belluzzo (2004: 116) observam que “os chamados movimentos ‘populistas’ foram tentativas – efêmeras e recorrentes – de interromper o processo de fusão entre os grandes negócios e o Estado. A Era Progressiva do começo do século XX foi um momento de rebelião ‘democrática’ dos pequenos proprietários, dos novos profissionais liberais e das massas trabalhadoras contra o poder dos bancos e das grandes corporações.” Ver adiante pp.154-5.
8 “Londres manteve seu monopólio tradicional sobre o comércio de ouro (…) Quantidades substanciais de recursos tornaram-se disponíveis para as colônias e domínios, os quais eram regularmente investidos em Londres. (…) Nas últimas duas décadas de nosso período [1890-1914], Londres manteve a supremacia nos empréstimos internacionais de curto-prazo, ou seja, no financiamento do comércio mundial. (…) Outros centros financeiros também se lançaram à aceitação e desconto de notas de comércio exterior (foreign trade bills). Nenhum deles, contudo, conseguiu se rivalizar com Londres em 1914. Londres também permaneceu como o principal mercado para a colocação de títulos governamentais dos distintos países” (De Cecco, 1974: 104-106).
9 Hobsbawm (1988: 111) observa que “para a economia britânica, preservar o mais possível seu acesso privilegiado ao mundo não-europeu era, portanto, uma questão de vida ou morte. No final do século XIX, o sucesso obtido nesse terreno foi notável estendendo incidentalmente a área controlada oficial ou efetivamente pela monarquia britânica a um quarto da superfície do globo (…). Se incluirmos o assim chamado ‘império informal’ de Estados independentes que na verdade eram economias satélites da Grã-Bretanha, talvez um terço do planeta fosse britânico em sentido econômico e, na verdade, cultural.”

Texto do Fred…de primeira