Tradição versus tecnologia
Esta é uma matéria interessante que eu retirei de uma revista de gastronomia que eu faço consultoria, a Prazeres da Mesa. A matéria é do Renato Machado e fala sobre um dos lugares mais avessos a entrada de tecnologia que eu conheço: o do mundo dos Vinhos. Vale a pena a leitura.
Cortiça ou rosca plástica – o impasse dos produtores de vinhos e a opinião de quem degusta
Até pouco tempo, os apreciadores desdenhavam das tampinhas de metal, chamadas de screw caps, que vedam a garrafa de vinho pelo sistema de rosca. Os produtores do Novo Mundo lançaram a ideia, a começar pela Nova Zelândia e Austrália, cujos brancos se mantiveram frescos e aromáticos, como devem ser. O principal argumento foi o econômico. A cortiça é cara e tem de ser importada. A escala de negócios dos australianos – milhões de garrafas visando aos supermercados dos Estados Unidos e da Inglaterra – ditou as novas regras do jogo.
Logo se pensou em estender o método aos tintos – o que já está acontecendo na Austrália e nos EUA. Há muitos Pinot Noir da Califórnia e do Oregon cujos produtores tomaram a decisão definitiva. Cortiça é, além de cara, ecologicamente incorreta. Os defensores do meio ambiente sempre fizeram campanhas pela preservação dos sobreiros portugueses.
Em Portugal, a reação dos plantadores não demorou. Começou-se a produzir cortiça de maneira sustentável. Os produtores lançaram uma campanha pela manutenção da vedação tradicional. Rolha de cortiça é para os românticos do vinho. E Portugal é um personagem importante desse capítulo. Era um país de vinhos simples, artesanais, que aproveitava da melhor forma possível o que a terra se dispunha a dar. A cortiça era um complemento natural.
Existe uma razão mais importante para a busca por uma vedação segura. Essa razão se chama TCA, ou tricloroanisol, um fungo que ataca a cortiça e destrói a bebida. O vinho bouchonné (que cheira a rolha) exala um odor de mau cogumelo e ao mesmo tempo se torna ácido. Não se pode beber. O pior: em cada dez garrafas, uma está bouchonée, atacada pelo TCA.
O problema é que as tampas de metal ainda não passaram pelo teste do tempo. Os vinhos brancos de fato ficam frescos, mantêm-se impecáveis durante o período de vida esperado, ou seja, dois a três anos no máximo.
Mas o que dizer dos tintos? E dos grandes vinhos de guarda, cujo compasso de amadurecimento depende da lenta respiração que se processa primeiro em barrica e depois na garrafa arrolhada? Como acostumar os produtores tradicionais de um Rioja, da Espanha, por exemplo, a não contar com a porosidade da madeira, traço determinante do vinho que fazem?
Há cortiça e cortiça. Não se pode falar genericamente de cortiça sem definir de que estamos falando. O Vega-Sicilia, primeiro tinto da Espanha, dispõe de laboratório especializado, investe pesadamente na identificação dos materiais extraídos da árvore e trabalha com a melhor cortiça do mercado – o que significa um custo ainda maior. Mesmo assim, me contou o proprietário Pablo Alvarez, há perdas – embora em escala menor que a média.
Os demais sistemas em uso nos vinhos correntes, da linha de supermercados, são rolhas sintéticas que, de acordo com estudos recentes, podem ser danosas a longo prazo. E não são biodegradáveis. Por isso, encontram resistência nos ambientalistas. Fiquei surpreso ao ver um produtor como Willi Brundlmayer, da Áustria, adotar o sintético em alguns de seus Riesling. Seus grandes crus, de nome próprio como Kamptaler Terrassen e Ried Steinmassel, mantêm-se fiéis à cortiça. O mesmo ocorre com franceses de qualidade e italianos, cuja resistência ao sintético e ao moderno é histórica.
Mas isso não quer dizer que não sejam frescos e seguros os vinhos jovens, tintos inclusive, de tampinha de rosca. Pelo menos não haverá TCA, nem vinho estragado. Quanto aos clássicos, é o que dizem os conhecedores, a rolha de plástico não é confiável. Não queremos desenroscar uma tampinha numa garrafa de um grande Borgonha como um Chambertin, ou de um velho Bordeaux do Médoc.
