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A reintrodução do padrão-ouro

Submitted by André Kadow on terça-feira, 16 junho 2009No Comment
A reintrodução do padrão-ouro

Este ponto requer algumas qualificações. Nas conclusões de seu estudo sobre a instabilidade do entre-guerras, Eichengreen (2000: 129-130) destaca três mudanças essenciais na economia internacional após a Iª Guerra Mundial: a) o deslocamento do centro de gravidade da economia mundial da Inglaterra para os EUA; b) a tensão crescente entre os objetivos econômicos internos e a defesa das taxas de câmbio; c) o caráter desestabilizador a partir de então assumido pelos fluxos de capital.
De fato, os EUA emergem da Primeira Guerra Mundial como a economia-líder. Sua liderança, contudo, não se projetou nas relações internacionais. Os EUA não passaram a exercer o papel de hegemon. O protecionismo e isolacionismo dos EUA eram incompatíveis com as necessidades de coordenação impostas pela realidade do pós-guerra. Não é demais lembrar que as relações entre Wilson e o Congresso jamais foram fáceis: o Congresso não aprovou o ingresso dos EUA na Liga das Nações e nem o Tratado de Versailles. Não só os EUA, como nação, eram ainda neófitos no tratamento das questões internacionais, como, ao contrário da Inglaterra, apresentavam superávits sistemáticos na balança comercial. O que se esperava de uma nação hegemônica é que liderasse a ordenação das relações internacionais e que, ademais, fosse compradora e emprestadora de última instância1. Isto talvez parecesse por demais estranho aos Estados Unidos: preocupados com seu próprio destino e ingressando em uma era de prosperidade, as questões européias certamente se apresentavam como demais distantes, turbulentas e primitivas. Afinal, a Iª Guerra fora uma conflagração exclusivamente européia, e os Estados Unidos já haviam dado sua contribuição. O que se tratava, agora, era de recuperar os créditos junto aos antigos aliados e se concentrar no bem-estar doméstico. O ciclo republicano dos anos 20’s (Coolidge Prosperity) marca, aí, uma ruptura radical com os ideais cosmopolitas de Wilson. As iniciativas que, a partir de então, se observam em relação à Europa, se inscrevem não na perspectiva da solidariedade e da cooperação, mas sim na lógica nua e crua do business as usual.2
A mobilização para a “guerra total” e as turbulências decorrentes do conflito minaram, ao mesmo tempo, os pilares liberais da ordem burguesa. A defesa do câmbio, em particular, deixou de ser a prioridade absoluta da política econômica dos governos. Quer pela pressão dos trabalhadores ou pela presença das massas na cena política, quer pela necessidade de reconstruir as economias, quer, ainda, pela exacerbação dos nacionalismos, os objetivos internos passaram a se sobrepor ao objetivo outrora “sagrado” da preservação do valor externo da moeda. A defesa do câmbio deixou de ser uma “convenção pétrea”3. Nas palavras de Triffin, “a mudança mais importante do período foi a importância crescente dos fatores domésticos como determinante derradeiro das políticas monetárias”4
Em decorrência desta transformação radical, os fluxos internacionais de capital, ao contrário do que se verificou no padrão-ouro clássico, deixaram de ser estabilizadores.5 O que se esvaiu, em particular, foi a crença na ação intransigente que os bancos centrais exerceriam na defesa da conversibilidade. Tratava-se, no fundo – e como sempre, nas questões monetárias – de uma questão de credibilidade e confiança6. Na segunda metade dos anos 20’s, “não era mais evidente que a desvalorização da moeda fosse um fenômeno temporário”. “Em contraste com a situação anterior à Iª Guerra, os movimentos de capital ‘de um caráter desestabilizador’ [B.Ohlin] tornaram-se freqüentes.”7
Em meio a essas mudanças, as reparações impostas à Alemanha e as dívidas de guerra apenas “exacerbaram as relações internacionais durante a década dos 20 e a depressão”8. De fato, a intransigência dos aliados europeus em relação ao pagamento das reparações pela Alemanha e a inflexibilidade dos EUA no recebimento dos créditos de guerra apenas tornaram as relações entre os países mais difíceis. A economia internacional, ao se iniciarem os anos 1920s, nitidamente carecia de uma ordenação: enquanto os EUA se isolavam e começavam a ingressar em um ciclo de expansão, a Alemanha permanecia prisioneira das reparações (e, em seguida, da hiperinflação). A França, às voltas com a instabilidade política e as tarefas de reconstrução, buscava estabilizar o franco, ao passo que a Inglaterra imaginava ser possível reproduzir as condições anteriores à guerra.
Em retrospecto, fica claro que a tentativa de restabelecer o status-quo-ante, através da reintrodução do padrão-ouro, foi inócua. Os EUA retornaram ao padrão-ouro em 1919, a Inglaterra em 1925 e a França em 1928. Os EUA e a França atravessaram os anos 20’s com suas moedas desvalorizadas e a Inglaterra com a libra apreciada. Neste período, EUA e França permaneceram sistematicamente superavitários, e a Inglaterra cronicamente deficitária. Vale dizer, não houve ajustamento algum. Na verdade, se assistirá a uma contradição em termos: de um lado, a nostalgia em relação ao período anterior à guerra e a crença no automatismo do padrão-ouro. De outro lado, a realidade do protecionismo (EUA, sobretudo), o movimento especulativo dos capitais privados de curto prazo (EUA, a partir de 1924) ou a fuga de capitais (França), a inexistência de coordenação supranacional, o peso das reparações e das dívidas de guerra e o avanço das demandas populares exigindo iniciativas expansionistas dos governos. As taxas fixas de câmbio e o Gold Exchange Standard aparecerão, aí, como anomalias, como resíduos de uma velha ordem. E não se trata apenas de meros resíduos, de singelas remissões nostálgicas de um passado supostamente ordenado e feliz. Em um contexto gravíssimo, que exigia coordenação, audácia, imaginação e políticas de estímulo e orientação do gasto, as “amarras douradas”- ao ainda forjarem as mentes e as políticas – contribuíram, em larga medida, para a profundidade do desastre que se assistiria a partir do último trimestre de 1929.

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