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Uma Nau sem Rumo: Notas sobre a França no Entre-Guerras

Submitted by André Kadow on quarta-feira, 16 setembro 2009No Comment
Uma Nau sem Rumo: Notas sobre a França no Entre-Guerras

A discussão sobre a evolução da França no entre-guerras envolve a consideração de momentos particulares, marcados por circunstâncias econômicas e políticas distintas: a) o período da reconstrução sob o Bloc National (1919 – maio 1924); b) o interregno de instabilidade sob o Cartel des Gauches (maio 1924 – julho 1926); c) a fase que se estende desde a implantação do franc Poincaré até a desvalorização da libra (julho 1926 – setembro 1931); d) o interlúdio deflacionário em que a França lidera o chamado “bloco do ouro” (setembro 1931 – maio 1936); e) a tormentosa experiência do Front Populaire (maio 1936- abril 1938) e f) a curta recuperação entre a guinada conservadora de Daladier e a eclosão da IIª Guerra Mundial (abril de 1938 em diante).

Recuperação, desvalorização do franco e inflação

A França emerge da guerra com graves perdas1. Principal palco dos sangrentos combates, sua população foi duramente vitimada: 1.300.000 mortes militares e 250.000 mortes civis diretamente decorrentes da guerra, às quais deve se acrescentar o déficit de nascimentos estimado em 1.400.000 pessoas e os 1.100.000 sobreviventes declarados inválidos (dentre os quais 56.000 amputados e 65.000 mutilados). Para um país que, antes mesmo da guerra, já apresentava uma forte tendência ao envelhecimento de sua população, estes números são ainda mais eloqüentes2. Os prejuízos materiais, de sua parte, não foram menos significativos: perdeu-se o equivalente a 11 anos de investimentos anuais, cifra próxima a 125% da renda nacional de 1913.

As marcas eram profundas, e as tarefas de reconstrução enormes. O desejo de vingança e a expectativa de que a Alemanha – através das reparações de guerra – arcasse com os custos do reerguimento material, irão pontilhar a vida política da França desde o Tratado de Versailles até a eclosão da Grande Depressão.3 De início prevaleceu o radicalismo do Bloc National (novembro 1919 – maio 1924). Em meio às feridas da guerra e ao German Scare, o objetivo imediato foi a imposição de duras sanções à Alemanha. Segundo Zamagni (2001: 164), “a França, que sofreu graves perdas por causa da guerra, considerava indispensável obter meios para a reconstrução através das reparações, e sobre este ponto baseou sua diplomacia de paz”. Diplomacia que, sob a liderança de Poincaré, conduziu à desastrada ocupação do Ruhr em janeiro de 19234.

Na verdade, não foi em virtude do pagamento das reparações pela Alemanha que a França, progressivamente, se reconstruiu. Entre 1919-24 o PIB cresceu 55% e as exportações 256%5, fatos que não guardam a mais remota relação com quaisquer pagamentos porventura feitos pela Alemanha, até porque estes somente viriam adquirir alguma relevância a partir de 1924, na esteira do Plano Dawes6.

Desde uma perspectiva estritamente econômica, o período do Bloc National caracteriza-se – exceção feita à contração generalizada de 1921 – pela tendência contínua ao crescimento da produção e das exportações, em meio à desvalorização do franco e à inflação.

A tônica das mudanças econômicas nos 1920s foi a modernização e a contínua industrialização. (…) A reconstrução trouxe uma nova infra-estrutura e a montagem de modernas plantas nas áreas devastadas. Em adição, a França recuperou as importantes áreas industriais da Alsácia-Lorena com suas usinas de aço, fábricas têxteis e depósitos únicos de potássio. (…) Os 1920s assistiram ao crescimento das ‘novas indústrias do século vinte’– automobilística, elétrica, aviação, borracha, alumínio, química – com a incorporação de tecnologias avançadas e a organização, na maior parte dos casos, de estruturas corporativas.”7

A evolução do produto real, das exportações e dos preços, a partir de 1920, pode ser observada no Gráfico 3.1:

Gráfico 3.1

França: Evolução do PIB, das Exportações e dos Preços (1920-39)

1929 = 100

PIB: preços constantes. Exportações: valores nominais.

Fonte: Mitchell (1992: 893; 559; 848). Elaboração própria.

Se a produção e as exportações caminhavam com vigor, é importante destacar, de outra parte, que, ao terminar a Iª Guerra Mundial, a confiança no franco estava abalada. Às trágicas perdas humanas e materiais já referidas, devem se acrescentar as circunstâncias econômicas e financeiras que redundaram no debilitamento do franco. Aí se incluem a redução das reservas de ouro, a perda de ativos no exterior e o cancelamento dos créditos junto à Rússia. A França, ademais, por conta dos empréstimos de guerra contratados, tornou-se a principal nação devedora dos EUA e da Inglaterra. Não bastando, o expressivo aumento das importações no imediato pós-guerra foi superior ao crescimento absoluto das exportações, o que redundou em déficits recordes nas transações comerciais e correntes em 1919 e 19208. A partir de 1920, ademais, o fluxo de empréstimos do Tesouro dos EUA aos antigos aliados foi interrompido, sem que os capitais privados norte-americanos o substituíssem de imediato.9 Se a estes dados se considerar que, durante a guerra, a inflação na França foi superior à da Inglaterra e, sobretudo, à dos EUA10, não é difícil perceber que, ao final do conflito, os “fundamentos” do franco estavam seriamente comprometidos. Já em 1919-20, é nítida a desvalorização do franco frente ao dólar e a libra: as cotações do dólar e da libra – que eram, respectivamente de 5,18 FF e 25,22 FF no início da guerra – alcançam 7,26 FF e 31,8 FF em 1919 e 14,30 FF e 52,70 em 1920.

As ações da Inglaterra (financeiramente mais forte), por seu turno, se inclinaram nitidamente em prol do restabelecimento da paridade anterior à guerra, finalmente alcançada em 1925. Isto significou uma pressão adicional sobre o franco, já que era impossível aos franceses praticarem – apesar do delírio daqueles que ainda sonhavam com a volta ao franc germinal! – uma política deflacionária que tivesse como meta a paridade anterior à guerra. A desvalorização do franco seguiu ao longo dos anos, até que durante o Cartel de Gauches a fuga de capitais e a desconfiança em relação ao franco levaram, em meados de 1926, a desvalorização a níveis alarmantes: em julho, as cotações médias do dólar e da libra alcançaram 40,95 FF e 199,0311, respectivamente.

É importante, neste particular, estabelecer um ponto: a explicação convencional para a inflação francesa até o franc Poincaré é a que enfatiza os nexos causais existentes entre o desequilíbrio das contas públicas (fundamentalmente decorrentes dos gastos com a reconstrução) e o nível de preços. Os gastos, aos serem financiados por emissões ou dívidas de curto-prazo exerceriam pressões inflacionárias. Os desequilíbrios – apesar de incômodos – seriam aceitos e tolerados, na expectativa de que os alemães, a qualquer momento, arcariam com os custos da reconstrução:

A razão para a fraqueza do franco deve ser encontrada nos métodos inflacionários usados para financiar a guerra e a reconstrução que a seguiu. (…) As demandas de reconstrução e a ausência de recursos externos em virtude do colapso dos mecanismos normais de comércio e pagamento, não deixaram outra alternativa senão a continuidade das políticas inflacionárias, uma vez terminada a guerra. (…) A maior ilusão era que os custos financeiros da guerra e da reconstrução poderiam ser transferidos à Alemanha. Com base nesta crença o governo permitiu o crescimento da dívida e tornou-se dependente das antecipações do Banco da França e dos empréstimos de curto-prazo junto ao público.” 12

Friedman e outros analistas têm pouca dificuldade em explicar a evolução dos acontecimentos de 1924. A inflação e a desvalorização da moeda na França nesse período são explicáveis em termos dos grandes déficits orçamentários derivados do financiamento dos custos de reconstrução do pós-guerra e assumido através de compras de dívidas do governo pelo Banco da França. A desvalorização acelerava a cada vez que novas informações tornavam-se disponíveis sobre a dimensão provável dos déficits orçamentários e como eles seriam financiados. (…) Quanto maiores os déficits e mais rápido o avanço da inflação e a desvalorização da moeda que eles provocavam, mais forte resultava a posição de negociação da França [na luta pelas reparações].”13

Por mais atraente – ou até mesmo verdadeira! – que seja essa explicação (ou suas variantes14), são necessárias algumas qualificações. Convém esclarecer, de início, o que ocorreu durante, e após a guerra. Durante a guerra, todos os países envolvidos no conflito – e não apenas a França – assistiram à elevação do déficit e da dívida pública. O endividamento dos Tesouros – é este o ponto central – ao se fazer junto aos Bancos Centrais e aos bancos privados redundou na injeção líquida de poder de compra nas economias15. A aceleração do gasto, por sua vez, em um contexto de utilização plena da capacidade produtiva e desajustes inevitáveis pelo lado da oferta (shortages), redundou, inevitavelmente, na elevação da inflação. Os controles de preços estabelecidos durante o conflito apenas inibiram e ocultaram as pressões inflacionárias. Mas não as suprimiram.

Imediatamente após a guerra, uma vez retirados os controles, as pressões foram liberadas e a inflação prosseguiu em todos os países em 1919, e na maioria deles – a exceção são os EUA – em 1920. Em 1921 e 1922, contudo, os impactos inflacionários da ‘economia de guerra’ já haviam se dissipado, e a recessão mundial se incumbiu de produzir a deflação de preços na França, nos EUA e na Inglaterra.16

O exame das informações disponíveis indica, por sua vez, que a inflação que a França irá assistir entre 1923-26 – particularmente a partir de 1924 – não guarda qualquer relação mais estreita com eventuais desequilíbrios das contas públicas. De um lado, as estimativas de Sauvy (1984 III: 16-7) apontam para uma trajetória nitidamente decrescente da relação entre a dívida pública e a renda nacional, a partir de 1921. A mesma tendência se observa para o déficit público, já a partir de 1920, e, sobretudo, a partir de 1924. Em 1925 o déficit já era praticamente nulo. O crescimento dos billets en circulation, por sua vez, é bastante modesto no período (4,8% entre 1920-24).

Através da observação do Gráfico 3.2 é possível notar um rigoroso paralelismo entre as curvas da cotação do franco e da inflação. A explicação convencional enfatiza que o paralelismo decorreria de um nexo causal claro, que iria dos déficits orçamentários para a inflação e desta para a desvalorização. O que se sugere, aqui, é o contrário: o sentido da determinação é o que vai da desvalorização (e posterior valorização) cambial para a elevação (e posterior redução) do nível interno de preços, e não o inverso. Seriam, assim, as vicissitudes do câmbio, e não os supostos desequilíbrios das contas públicas, que explicariam a inflação francesa no período.

A conexão entre a desvalorização e a inflação dar-se-ía de duas formas: diretamente, através da elevação do custo dos produtos importados, e indiretamente através da lógica da formação dos preços. Neste caso, é absolutamente plausível que os detentores de ativos líquidos e instrumentais, em um processo de desvalorização, tendam (na medida do possível)

a ‘precificar’ suas operações – e a sua riqueza – nas moedas fortes. A fratura das “funções da moeda” é típica dos processos de desvalorização (e de inflação): a função reserva de valor se destaca das demais funções (meio de circulação e meio de pagamento) e se desloca para as moedas fortes. A inflação passa a ser o ‘prêmio’ para se permanecer na moeda local.

Este processo adquiriu contornos absolutamente nítidos com a ascensão do Cartel des Gauches ao poder. As incertezas do mur d’argent em relação à possibilidade da taxação sobre o capital precipitou a fuga de capitais que se assistiu entre 1924-26. A fuga de capitais acentuou a desvalorização do franco. A desvalorização, por seu turno, tinha características auto-alimentadoras: a cada cotação mais alta da libra ou do dólar, maior era a expectativa de que as cotações se tornassem ainda mais elevadas no futuro imediato, o que reacendia a corrida em direção às moedas fortes. É ilusório supor que este processo não afetasse a formação de preços: os agentes mais relevantes do ponto de vista econômico e financeiro (exatamente os price-makers que promoviam a fuga de capitais) inevitavelmente incluíam as cotações da libra ou do dólar em seus cálculos, fato que se transmitia – com intensidade variável – aos preços locais. É, assim, a lógica de preservação do valor da riqueza (nas moedas fortes) por parte dos atores econômicos centrais – e não um duvidoso desequilíbrio das contas públicas – que parece explicar a inflação no período.17

Gráfico 3.2

França: Evolução da Paridade Franco/Libra, Inflação, Billets em Circulação e Déficit Público (1919-38) 1919 = 100

Fontes: Sauvy (1984 III: 395; 393; 379); Maddison (1991: 300-1). Elaboração própria.

Esta discussão permanece aberta, mas chama a atenção para a existência de três momentos distintos. O primeiro, situado entre 1914-20, em que a inflação foi um subproduto da ‘economia de guerra’, obedecendo a determinações preponderantemente fiscais (financiamento dos gastos através de emissões e endividamento junto ao setor bancário) e a constrangimentos de oferta (shortages). O segundo momento, referente ao biênio 1921-22, foi um período de deflação, e não de inflação. Já no período compreendido entre 1923-26, sobretudo a partir de 1924, a inflação francesa parece ter obedecido a determinações essencialmente políticas e cambiais: a preservação da riqueza por parte dos principais detentores dos ativos locais, redundou na fuga de capitais, na aceleração da desvalorização e daí na inflação.

1 As estimativas que se seguem são apresentadas por Sauvy (1984 I), cap.I.

2 “A população francesa estava virtualmente estagnada. Dentro das fronteiras posteriores à guerra (incluindo a Alsácia-Lorena), apesar da imigração de cerca de 2 milhões de pessoas, ela cresceu apenas 1% entre 1911 e 1936, passando de 41,5 para 41,9 milhões. Como resultado, e refletindo as pesadas perdas da população jovem durante a Guerra, a proporção dos menores de vinte anos caiu de 34% para 31% no período, enquanto a dos maiores de sessenta anos cresceu de 12% para 14%” Kemp (1971: 87). As baixíssimas taxas de crescimento demográfico da França, entre 1820-1950, se situam entre as menores do mundo: 0,2% a.a. entre 1870-1913, e 0,0% a.a. entre 1913-50. Ver, a propósito, Maddison (1995: 102-3).

3 O slogan “Os alemães pagarão!” não era apenas um recurso retórico e político. Imaginava-se, inicialmente, que o mesmo tivesse bases econômicas viáveis. O desenrolar dos acontecimentos – que culminaram com a intervenção militar de 1923 – demonstrou, contudo, que a questão das reparações de guerra era evidentemente mais complexa: “A ilusão de que o pagamento das reparações resolveria todos os problemas financeiros da França foi destruída no curso de 1923.” Kemp (1972: 82).

4 “A ocupação do Ruhr não serviu para nada. Os empresários alemães e os trabalhadores sabotaram a produção e a distribuição em uma exibição massiva de resistência passiva ou guerra não violenta.” Kindleberger (1985: 42).

5 Por conta da base extremamente reduzida de 1918, o crescimento do PIB e, sobretudo, das exportações, foi particularmente elevado em 1919-20. O PIB cresceu 36,3% no biênio (Tabela III.1) e as exportações saltaram de 4.723 milhões de francos em 1918 para 11.880 em 1919, e 28.894 em 1920. Mitchell (1992: 559).

6 Ver Tabela III.3.

7 Kemp (1972: 83-4). Sobre a recuperação francesa nos anos 20’s, ver, também, Aldcroft (1985: 243-5). Para uma visão comparativa, ver Feinstein & Temin & Toniolo (1997: 60-2; 68-9).

8 Ver Tabela III.3.

9 É só a partir de meados de anos 20’s que se inicia o ciclo internacional de crédito comandado pelas finanças americanas. Ver Arthmar (2002).

10 Entre 1914-19 o nível de preços cresceu 93% nos EUA, 119% na Inglaterra e 168% na França. A evolução comparada dos índices de preços pode ser observada na Tabela III.1.

11 Em 19 de julho de 1926 a cotação da libra atingiu 235 FF.

12 Kemp (1972: 74). O mesmo argumento é sustentado por Kemp (1971: 83) em seu brilhante artigo na Economic History Review: “Ao financiar a reconstrução urgente das áreas devastadas pela guerra no norte e leste da França, o governo continuou a se endividar pesadamente, admitindo inadvertidamente que o custo seria arcado pelas reparações da Alemanha. Os generosos pagamentos feitos às empresas permitiram o reequipamento e a modernização de parte substancial da indústria francesa, e contribuíram de modo não desprezível para a prosperidade dos anos 1920s. Entretanto, a contrapartida inevitável foi a contínua pressão inflacionária doméstica, a depreciação do franco nos mercados externos, e a perda de confiança na moeda local”.

13 Eichengreen (2000: 84-5).

14 Para Aldcroft (1985: 177) – por exemplo -, o problema não era, propriamente, o déficit público, mas as dificuldades de rolagem da dívida pública de curto-prazo, que forçavam o Tesouro a contrair empréstimos com o Banco da França, “o que afetava de maneira adversa os preços”.

15 No caso do endividamento dos Tesouros junto aos Bancos Centrais, o resultado foi a emissão monetária; no caso do endividamento dos Tesouros com o sistema bancário, o resultado foi a expansão do crédito. Ver p.47.

16 A Alemanha seguia sua marcha rumo à hiperinflação.

17 Entre 1923-26, como se viu, há uma relação inversa entre as tendências do déficit público e da inflação: o déficit público caiu e a inflação aumentou. Entre 1929-35, a relação é novamente inversa, mas em sentido contrário: o déficit público aumentou, enquanto a inflação caiu.

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